O Google deixou de ser uma empresa que agrupava dezenas de negócios diferentes para se tornar uma empresa dentro de uma holding, chamada Alphabet, Inc. Esta, por sua vez, será a responsável por, agora, descentralizar o foco antes apenas no Google para outras vinte e poucas áreas de negócios, de empresas e empreitadas diferentes. Ponto. E vale a ressalta: que belo nome para uma holding, de uma simplicidade enorme.

Não há muito mistério sobre o movimento anunciado na tarde do dia 10 de agosto por Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google – este último que será, inclusive, o CEO do novo conglomerado e que escreveu uma carta no site da nova holding (abc.xyz) sobre a nova empresa:

“Como Sergey e eu escrevemos na carta original dos fundadores, há 11 anos, “o Google não é uma empresa convencional. Não temos a intenção de se tornar um”. Como parte disso, nós também dissemos que você poderia esperar que nós fizéssemos “apostas menores em áreas que podem parecer muito especulativa ou mesmo estranhas quando comparado aos nossos negócios atuais”. Desde o início, temos nos esforçado em fazer mais, e fazer coisas importantes e significativas com os recursos que temos”.

Muito romântico e prático, no final das contas.

Larry Page e Sergey Brin, fundadores da Google

O ponto principal dessa mudança é claro: o Google é um negócio que depende quase que exclusivamente de publicidade (em seus vários formatos online). Criar uma holding com vários negócios fará com que outros mercados sejam melhor explorados e com a dedicação efetiva e correta – longe da sombra causada pelo lucrativo negócio dos links patrocinados. Talvez, agora, vejamos a Nest (que faz sensores para automatização de casas) ganhar tração global, por exemplo.

Segundo Page, cada empresa da Alphabet contará com seu próprio Chief Executive Officer, diretorias e metas, e todas correrão atrás dos próprios investimentos, financiamentos e métodos para viabilizar novos negócios e alcançar objetivos.  “Além disso, com esta nova estrutura, planejamos implementar relatórios de resultados segmentados para os nossos resultados do quarto trimestre (Q4), onde as finanças do Google serão fornecidas separadamente das do restante das empresas da Alphabet”, explica ele.

Sundar Pichai, que foi inclusive cotado para ser o CEO da Microsoft após Steve Ballmer, criou coisas bacanas como o Google Drive e o Google Maps

O indiano Sundar Pichai, que está no Google desde 2004, será o novo CEO do Google. Para os fundadores da companhia e agora controladores da holding, Pichai é um profissional que “entrega o resultado prometido” e “tem grande senso de liderança, competência e conhecimento”. “Nada mais justo do que ele ser o novo CEO”, afirmou Page.

E quais serão os negócios do Google? Publicidade, Mapas (Waze inclusive), Youtube e Android – ou seja, basicamente toda a operação que lida com a maior parte dos US$ 66 bilhões de faturamento e o sistema operacional que potencializa a captação de informações de usuários para converter, de maneira mais eficaz, campanhas e publicidades online. A responsabilidade é enorme.

Outra coisa que deve ser considerada: possivelmente, esse monte de negócio embaixo do Google pode ser desmantelado em outras áreas, uma vez que esse desmembramento evitaria processos por monopólio (algo que circunda o Google a anos), como aconteceu recentemente com a União Europeia.

Nomes podem mudar para se encaixar no quadro e certamente aquisições vão rolar. De forma resumida, a nova estrutura fica assim:

Alphabet (a companhia principal)
B
Calico (focada em pesquisas sobre longevidade)
Capital (investimentos em startups)
D
E
Fiber (que tem o slogan “Um tipo diferente de internet e TV)
Google
H
I
J
K
Life Sciences (focada em P&D para coisas como as lentes de contato do Google)
M
Nest
O
P
Q
R
S
T
U
Ventures (investimentos em tecnologia)
Waze
X lab (incubadora do Google, que tocará projetos startups como o Wing, de entregas com drones)
Y
Z

Todas essas letras vazias (o que é muito interessante, tendo em vista que entre 2010 e 2014, o Google comprou cerca de 128 empresas) contarão com algum negócio.

Talvez o “T” seja composto pela Tesla Motors, que é potencialmente a empresa mais atraente para os esforços do Google em criar seus próprios carros autônomos e eco suficientes (o que me faz pensar que a Apple também imagine isso e vá fazer uma oferta pela empresa de Elon Musk). Em 2013, o Google quase comprou a Tesla, com oferta de US$ 6 bilhões.

Talvez o “B” seja de BlackBerry, que hoje conta com um dos mais seguros e confiáveis softwares para gestão de equipamentos móveis para o mercado corporativo, que pode, facilmente, ser convertido para uma gestão de “coisas conectadas”, dando vazão ao negócio de Internet of Things.

Enfim, as possibilidades são diversas e certamente veremos várias pílulas do alfabeto sendo completado durante o ano (“D” para data center, e a oferta de Infraestrutura e plataforma como serviço do Google, para brigar com a Amazon Web Services). Podemos especular e nos divertir com isso por horas.

Na bolsa, a Alphabet Inc substituirá a Google Inc e as ações do Google serão automaticamente convertidas para o mesmo número de ações na Alphabet, com os mesmos direitos. As duas classes de ações continuarão a ser negociadas como GOOGL e GOOG.

Louco pensar que tudo surgiu com um algoritmo e que uma empresa da época da bolha da internet possa ser, no final, uma das empresas que vão superar todas as transformações que o mercado passa por influência da internet e das hiperconexões. Mérito de Sergey Brin e Larry Page, que também lançaram com o anúncio uma nova forma de encerrar uma segunda-feira.