Com os cortes realizados pelo Governo Federal na pasta do MCTI, laboratório não conseguirá pagar a conta de luz para fazer o computador funcionar

O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) investirá R$ 60 milhões na aquisição e instalação de um supercomputador (o maior da América Latina e ranqueado no top 100 do mundo), com capacidade de processamento 1,1 teraflop e grande capacidade de armazenamento e processamento de dados. Porém, devido aos cortes realizados pelo Governo Federal, como parte do plano de alcançar a meta fiscal, o Laboratório pode não ter dinheiro para pagar a conta de luz para fazer o computador funcionar, afirmam fontes a par da situação.

O corte de verbas no Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação (MCTI) foi de 25%, e devem atingir principalmente as verbas de custeio, ou seja o dinheiro que as entidades embaixo do chapéu do MCTI têm para manter a operação rodando.

“Os cortes na verba de custeio foram severos”, afirma o professor Pedro Leite, diretor do LNCC, em entrevista ao Up To Tech. “O projeto vai acontecer, pois houve um comprometimento com a comunidade científica brasileira e empresas que vão usufruir do supercomputador, mas vamos passar por momentos complexos”.

Anunciado em 2014, o supercomputador foi adquirido em parceria com a francesa Bull, que em maio do ano passado foi comprada pela Atos por 620 milhões de euros. Com ele a expectativa era atrair companhias diversas para desenvolver econômica e tecnologicamente a região de Petrópolis (RJ), transformando a cidade e arredores em um polo de pesquisa e desenvolvimento para a comunidade científica brasileira e também empresas locais.

Tempos de vacas anoréxicas

O professor explica que, nos últimos anos, o Laboratório viveu um período de “vacas gordas”, com a chegada de muitos projetos e crescimento exponencial no número de computadores alocados no LNCC, rodando projetos diversos, desde empresas privadas até instituições de fomento a pesquisa, como do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

E todo esse crescimento, claro, impactou brutalmente o custo operacional do Laboratório, principalmente ao que tange consumo de energia.

“Para se ter uma ideia, há oito anos, quando entrei para o LNCC, gastos com energia representavam entre 5 e 6% da verba de custeio. Este ano, sem o novo computador, (a conta de luz) já representava 25% do orçamento. Com o supercomputador, e levando em consideração as verbas de custeio atuais, mal poderíamos ligar a máquina. Essas arquiteturas de supercomputadores são sedentas por energia”, conta o diretor.

Segundo ele, um supercomputador como o que está em momentos finais de implementação no LNCC, poderá adicionar somente de custo em consumo de eletricidade, um montante de R$ 5 milhões por ano.

Mas o problema não é exatamente apenas na questão do corte de verbas realizado pelo Governo. Existe também a falta de uma política de competitividade que preze pela continuidade de projetos como o supercomputador, conta o professor.

“Precisamos ter uma mudança na forma de apoiar grandes projetos aqui no Brasil. Atualmente, itens como o consumo de energia são considerados contrapartida da instituição que recebe um recurso, um investimento. Ou seja, recebemos a verba para investir, mas não para manter, o que gerou a situação atual”, explica ele.

Nos EUA e Europa, grandes projetos como o de Petrópolis, quando concedidos, têm o que se chama de overhead administrativo. “A instituição que recebe o projeto compra o equipamento, mas também tem apoio para o custo operacional, seja  ele energia, segurança, mais gente etc. Aqui no Brasil, todos estes custos são problema da instituição”, detalha o professor, indicando que, para que o País ganhe tração e competitividade no mercado mundial, é necessário adotar um modelo parecido com o americano e europeu.

“Vivemos novos tempos, de vacas anoréxicas indo para o brejo”, sentencia.

Outro modelo seria colocar, na lei, que a captação de alguns tributos seriam direcionados para instituições como o LNCC, assim como é feito com o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) para a Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, parte do recolhimento do imposto realizado pelo governo estadual de São Paulo é direcionado para a instituição de ensino, listada entre as 60 maiores do mundo e com o maior produtora de patentes do País.

Toda a infraestrutura para suportar o supercomputador está basicamente pronta. Foi construído um novo prédio no Laboratório Nacional exclusivamente para abrigar o supercomputador e toda a parafernália atrelada a ele, como os três geradores de energia e a estrutura de transmissão de dados e as pessoas envolvidas na operação.

Os cortes não atingem somente o supercomputador, mas também o cluster em utilização pelo LNCC. Quando o computador novo estiver instalado, o orçamento que o LNCC tem hoje dará para pagar só nove dias do atual computador e nenhum dia de funcionamento do supercomputador.

Medidas provisórias e a promessa de luz no fim do túnel – pelo menos em 2015

Cortes no MCTIO diretor conta que algumas medidas internas foram tomadas para diminuir o custo operacional do Laboratório. Foi implementado, por exemplo, uma regra para que nos horários de pico e consumo de energia (entre 18h e 21h) o prédio com os computadores atuais do LNCC fique, basicamente, fechado, prezando exclusivamente pelo funcionamento das máquinas. Também serão cortados custos com serviços terceirizados, como limpeza.

Essas medidas fazem parte de um pacote de ações tomadas pelo Laboratório para manter tudo operando. “Minimizam o impacto dos cortes”, afirma.

Porém, o diretor estava, durante toda a conversa, animado e confiante de que, pelo menos para este ano, tudo funcionará bem. “Na semana passada veio uma luz. Estive em Brasília para uma reunião. Conseguimos uma promessa de recursos adicionais de custeio que viabiliza o funcionamento do supercomputador”, diz. “De qualquer forma, temos que reduzir significativamente algumas coisas, corte de pessoal, serviços terceirizados, mas vamos superar”.

Com essa promessa, o professor acredita que todas as pesquisas e desenvolvimentos prometidos para 2015 que envolvam o supercomputador serão realizados, mas alerta que para 2016 será necessário voltar a brigar para ter verba extra.

“A vantagem de ser um pouco mais velho, como eu, é que já passei por esses terremotos. Eu tenho uma absoluta confiança de que vamos dar um jeito. Depois da reunião de Brasília, eu vi uma luz, literalmente. Porém, o problema é que tudo é batalhado, não se pensa em continuidade, em um modelo que dê segurança e não dores de cabeça. Passamos por isso todo ano”, pontua.

“Eu tenho uma solução para 2015, mas 2016 permanece no escuro. O que me deixa confiante é que, novamente, a vaca anoréxica está indo para o brejo, mas eu nunca vi ela chegar lá, ficamos sempre no susto”.

Segundo o diretor do LNCC, o MCTI sabe do problema, e ele acredita que, sobretudo nestes últimos meses, “existe um interesse muito maior em atacar os marcos legais das instituições de pesquisa”. “Trabalhamos com base em autarquias que colocam uma série de amarras na forma de gerir inovação por meio de pesquisas cientificas e tecnológicas. O Brasil precisa, seguramente, passar por mudanças drásticas na forma de conduzir a dinâmica dos institutos de pesquisa, caso contrario não seremos competitivos”.

O LNCC

O Laboratório tem como objetivo prover sistemas de computação que atendam a demanda de médicos, cientistas e empresas em geral. Composto por 7 laboratórios principais, ele trabalha com modelagens moleculares, aplicações em bioinformática, em segurança da informação e em modelagens de dados. O LNCC desenvolve projetos nas áreas de biologia, petróleo, gás e medicina. Trabalham no local cerca de 320 pessoas, entre pesquisadores, tecnologistas, prestadores de serviço, contratados por projetos, bolsistas e alunos de pós graduação no programa de modelagem computacional, mais equipe de administração e limpeza.

A proporção de tamanho e capacidade do supercomputador é algo realmente incrível. E merece um parágrafo para ser explicado: a unidade que mede a capacidade de qualquer computador é o Floating-point Operations Per Second (FLOPs) que, em português, quer dizer operações de ponto flutuante por segundo. O supercomputador do LNCC, com um 1,1 petaflop, consegue, então, fazer 1,1 quatrilhão de operações em ponto flutuante em um segundo. Aquilo que corporativamente (e também a título de tendência) se chama de Big Data a torto e a direito, em um supercomputador como este, é arroz com feijão.

“Acredito que temos um problema no Laboratório e em todo Brasil, de divulgar o que conquistamos aqui. Trabalhamos forte para gerar inovação para diversas empresas e setores inteiros, como o da agricultura. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é uma grande aliada, por exemplo. Não somente isto, fazemos pesquisas e já trabalhamos com a computação quântica. Precisamos mostrar estes avanços, mas não temos um apoio adequado”, observa o diretor.

O esperado

O supercomputador gerou um mar de expectativas. Na época do anúncio da aquisição, o professor, revelou que o supercomputador brasileiro teria uma capacidade 60% maior que o da Petrobras e que a meta era de chegar ao top 20 entre os maiores do mundo, alcançando, em um ano, a capacidade de petaflop – salto exponencial em sua capacidade de análise de dados e entrega de valor para toda a cadeia de serviços envolvida no projeto. Em 2022, o objetivo era alcançar o hexaflop, capacidade que atualmente só é encontrada em supercomputadores nos Estados Unidos e Europa.

O diretor do LNCC, em comunicado na página do Laboratório, previu “uma nova era a partir de 2015”, com a instalação do supercomputador, o funcionamento da Rede Metropolitana de Alto Desempenho e a chegada da Universidade Federal Fluminense (UFF) na região de Petrópolis. “Temos uma responsabilidade enorme para que o processo tenha sucesso”, disse ele na época, ressaltando, naquele momento, que a conquista do supercomputador só se deu “por causa da parceria dos três níveis de governo”.

Na época, o diretor destacou, também, que o Brasil estava muito atrasado no uso de supercomputadores para alavancar Ciência e Tecnologia, mas que com a aquisição o País se colocaria em um cenário mais competitivo.

Próximos passos

Agora em julho, a Atos deve apresentar oficialmente o supercomputador em um evento para imprensa, analistas e executivos. O encontro marcará o “início” da operação do supercomputador. A companhia francesa espera, também, utilizar o supercomputador para aumentar seu poder de ataque a oportunidades e conhecimento do mercado brasileiro, atacando a negócios de alto consumo de dados, como óleo e gás.

A expectativa do Laboratório é ligar a máquina em agosto e iniciar todos os projetos alinhados anteriormente com empresas e Governo. Em setembro, ocorrerá a mudança da diretoria do Laboratório.