CEO da Microsoft, Satya Nadella tem transformado a percepção das pessoas quanto ao futuro da companhia, que ruma para uma gigantesca mudança de negócio

Quando Satya Nadella subiu ao palco do Lenovo Tech World, em Beijing, China, o público foi ao delírio. Pessoas do mundo inteiro que estavam no evento batiam palmas e gritavam o nome do CEO da Microsoft. Algo único de se ver. E uma situação extremamente inusitada, uma vez que estamos falando da companhia que não há muito tempo era sinônimo de atraso e falta de inovação.

Embora muitos sejam os sinais de que a Microsoft está se reinventando dia após dia, foi, honestamente, um acontecimento a parte no evento. O CEO da Intel, Brian Krzanich, que subiu ao palco pouco antes de Satya Nadella, recebeu apenas os aplausos padrões de conferências, embora tenha levado um tablet que faz captura de imagens em 3D e um drone para sua apresentação.

Em seu discurso, de aproximadamente 30 minutos, Nadella abordou diversos aspectos sobre a profunda transformação na proposta do negócio da Microsoft, que cada vez mais busca desassociar sua imagem do software. E talvez tenha deixado o palco com uma responsabilidade gigante, já que deixou muita gente embasbacada com sua postura no palco e os fortes direcionamentos estratégicos.

A missão

A missão da Microsoft nunca mudou – foi reerguida, como pontuou o CEO. A partir de agora – e mais do que nunca, segundo Nadella -, a missão da companhia que ele comanda é dar poder para que pessoas e organizações consigam fazer mais. “Do Windows 10, passando pela computação holográfica, até a inteligência cognitiva do Cortana. Estas tecnologias vão direcionar o futuro da Microsoft”, afirmou o CEO.

Para ele, é certo que hoje já vivemos em um mundo que pensa primeiro em tecnologias e serviços por meio de plataformas móveis e em acesso e disponibilidade via computação em nuvem. E segundo Nadella, é errado pensar somente em dispositivos ou em Tecnologia da Informação quando se fala desses dois fatores. “(Ambas) tratam da mobilidade da experiência humana em torno de todas as plataformas computacionais que estão conosco todos os dias”, explica.

A estratégia

Tendo esta visão como ponto de partida, o centro da estratégia da Microsoft é se transformar na empresa que será a plataforma de produtividade para o mundo de quem pensa e acredita na mobilidade e computação em nuvem em primeiro lugar. “Do dispositivo à infraestrutura na nuvem, dos diversos usuários aos profissionais de TI”, acrescenta.

Esta estratégia está fundamenta em três pontos essenciais para o CEO: (1) reinvenção da produtividade e dos processos de negócios, (2) construção da nuvem inteligente e (3) desenvolvimento e criação de mais computação pessoal (personalizada para cada usuário).

O primeiro fator, aponta o CEO da Microsoft, se trata do sistema de computação inteligente Cortana e de toda a plataforma e aplicações que se encaixam no Office 365. O Cortana, para muitos, é apenas um concorrente do Google Now ou da Siri, da Apple. Para Nadella, é um sistema que vai além destas propostas, funcionando como uma aplicação para gestão de documentos, por exemplo. O uso da voz, disse ele, é o próximo salto da experiência de uso de tecnologia.

A segunda ambição da estratégia da companhia trata de aumentar o poder do alcance dos dispositivos e das aplicações do mundo digital. “Toda aplicação será inteligente e terá a profunda competência do aprendizado contínuo”, acrescenta. Esta parte está confiada ao Microsoft Azure, infraestrutura de computação em nuvem da companhia.

O Windows 10

Satya Nadela, Microsoft

Este é o terceiro ponto da estratégia. Talvez o mais crítico. A Microsoft vai parar de fazer novas versões do Windows (pois elas estarão na nuvem e serão atualizadas automaticamente) e deixará de cobrar pela plataforma que durante décadas tem sido o carro chefe da empresa, o núcleo do negócio da Microsoft. Sim, você fará a atualização para o Windows 10 de graça, e a Microsoft sabe que esta seja, talvez, a única forma de fazer com que os usuários se mantenham com o sistema operacional.

“Não se trata de mais um lançamento do Windows, mas sim o início de uma nova jornada e era para o Windows”, ressalta, pausadamente, o CEO.

O software chave da Microsoft se transformará numa plataforma digital de serviços. O sistema operacional mais usado no mundo terá um salto em sua proposta, deixando de ser estático para se posicionar como uma base de conexão entre diversos dispositivos, serviços e aplicações, algo desejado pela companhia desde o primeiro sussurro sobre o Windows 8, mas que nas mãos de Satya Nadella parece que tomará, por fim, corpo e competência.

“O Windows 10 é um serviço, que nos permitirá desenvolver de maneira contínua novas experiências, seja produtividade ou entretenimento, de maneira segura e confiável para todos os usuários do Windows. Obviamente, também não se trata apenas do PC. O PC está mudando e se transformando em novos modelos de computação em novos computadores pessoais”, arremata o CEO.

O papel de desenvolvedores e parceiros de negócios, como a Lenovo, será chave para o sucesso da plataforma da Microsoft. Segundo Nadella, a companhia assumiu uma postura agressiva na construção de benefícios para os usuários do Windows 10. Fica claro que ele não está falando apenas do software, mas dos dispositivos, das conexões e das integrações que são necessárias para ampliar a experiência de uso e eficiência do sistema. A Lenovo, inclusive, será um dos primeiros parceiros a integrar o Windows 10 em diferentes tecnologias, iniciando uma caminhada para a Internet das Coisas.

Microsoft Hololens

“Pela primeira vez na indústria, estamos capacitados para não somente para fazer as digitalizações do mundo real, mas também para recriar e interagir com a representação do mundo real em plataformas digitais”.

Dessa forma, o CEO da Microsoft puxou o assunto da computação holográfica, que para a empresa tem um nome: Hololens. A companhia desenvolveu um óculos que cria hologramas que podem interagir com o mundo real. A ideia é usar o equipamento tanto para entretenimento – parte de uma nova experiência do Xbox, por exemplo -, como para o desenvolvimento de novas experiência no mercado corporativo, alavancando a forma remota de trabalho e desenvolvimento de projetos.

“Estou certo que a computação holográfica será um marco tão grande como foi o lançamento da computação em si décadas atrás”, finalizou Nadella.

Ao sair do palco, o CEO da Microsoft voltou a ser muito aplaudido. Até mesmo o CEO da Lenovo, Yang Yuanqing, visualmente demonstrava uma satisfação diferente.

Afinal, Nadella foi ao evento para falar sobre o futuro da aliança da Microsoft com a Lenovo, que com o uso do Windows 10 e da computação em nuvem tem o objetivo de alavancar a Internet das Coisas, casando a inteligência de software e serviços da Microsoft com a de construção de hardware e experiências em novos dispositivos da Lenovo. Porém, ele deixou o evento com a promessa de que uma a Microsoft deve voltar a ser uma gigantesca estrela do mercado mundial de tecnologia.

*Fui convidado para viajar à China pela Lenovo, como parte do programa de influenciadores da marca Lenovo Insider